Ser humano: maior espécie invasora, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

“O ser humano é um ectoparasita que está matando o seu hospedeiro”Alves (28/09/2016)“Há 10.000 anos os seres humanos e seus animais representavam menos de um décimo deum por cento da biomassa dos vertebrados da terra. Agora, eles são 97 por cento”Patterson (07/05/2014)  [EcoDebate] Em 2012, escrevi um artigo provocativo no Portal Ecodebate perguntando se a expansão do ser humano por todos os cantos e espaços do Planeta poderia ser considerada uma atividade semelhante ao que acontece na biologia com as espécies invasoras.A ideia do conflito irreconciliável e antagônico entre o ser humano e a natureza não é nova. Diversos autores já trataram a humanidade como um câncer, uma praga ou erva daninha que ataca a biodiversidade da Terra. Por exemplo, o grande ambientalista David Attenborough disse: “Somos uma praga sobre a Terra. Não é apenas a mudança climática; é o espaço absoluto, lugares para cultivar alimentos para esta enorme horda. Ou nós limitamos o nosso crescimento populacional ou o mundo natural fará isso por nós. Aliás o mundo natural já começou a fazer isso para nós agora”.Na mesma linha, o filósofo britânico John Gray, em entrevista à revista Época (29/05/2006), apresenta um prognóstico pessimista sobre a humanidade: “A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso”.Também o Dr. David Suzuki (2016) considera que os seres humanos estão no topo dos predadores do mundo. Predação é uma função natural importante. Mas como a população humana cresceu, passou a influir na dinâmica dos ecossistemas rompendo os equilíbrios naturais. Ele diz que precisamos parar de procurar bodes expiatórios e olhar no espelho e perceber que a principal causa do declínio das espécies são o agigantamento das atividades antrópicas.Agora em abril de 2016, a revista Nature publicou o texto “Post-invasion demography of prehistoric humans in South America” (GOLDBERG, et. al. 2016) que trata da “invasão” humana na América do Sul. O texto reconstrói os padrões espaço-temporais de crescimento da população humana na América do Sul, usando um banco de dados recém-agregados de 1.147 sítios arqueológicos e 5.464 datações calibradas abrangendo quatorze mil a dois mil anos atrás. Demonstra que, em vez de uma expansão exponencial constante, a história demográfica dos sul-americanos é caracterizada por duas fases distintas. Em primeiro lugar, os humanos se espalharam rapidamente por todo o continente desde 14 mil anos, mas manteve-se com população baixa até 8.000 anos atrás, incluindo um período de oscilações (boom and bust) sem crescimento líquido por 4.000 anos. Só com sedentarismo generalizado a partir de 5,5 mil anos atrás houve uma segunda fase demográfica de crescimento exponencial da população. A capacidade da humanidade para modificar seu ambiente e para aumentar acentuadamente a capacidade de carga na América do Sul é, portanto, um fenômeno recente.  O estudo estabelece uma base para a compreensão de como os seres humanos contribuíram para a maior extinção do Pleistoceno de grandes mamíferos, como preguiças, cavalos e criaturas chamadas gomphotheres. Em seguida, o estudo considera que, de acordo com outras espécies invasoras, os seres humanos parecem ter sido submetidos a um declínio da população, consistente com a ideia da sobre-exploração dos recursos naturais. Mas com o surgimento de sociedades sedentárias houve novamente crescimento exponencial da população.Hoje em dia parece que o crescimento populacional ultrapassou a capacidade de carga novamente. A pergunta que fica é se os avanços tecnológicos serão capazes de superar os limites da capacidade de carga ou se a pressão das atividades antrópicas vai provocar uma grande extinção em massa das espécies endêmicas e dos demais seres vivos do Planeta.O artigo publicado na revista PLoS Biology, em agosto de 2016, estima que o mundo natural contém cerca de 8,7 milhões de espécies. Mas a grande maioria ainda não foi identificada. Os autores alertam que muitas espécies serão extintas antes que possam ser estudadas.As estatísticas mostram que as áreas de proteção ambiental cobrem apenas 20 milhões de quilômetros quadrados, ou cerca de 15% do planeta, número que está abaixo das Metas de Aichi de Biodiversidade, adotadas por mais de 190 países em 2010, que prevê 17% de cobertura em 2020. As Metas de Aichi são consideradas o maior acordo global sobre biodiversidade em nível mundial e estão voltadas à redução da perda da biodiversidade, em todo o planeta. Reunidas em cinco objetivos estratégicos, as 20 Metas de Aichi são assim chamadas, pois foram definidas durante a 10ª Conferência das Partes da Convenç

Fonte: Ser humano: maior espécie invasora, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

O CAMINHO DAS ÁGUAS

O caminho das águas, por Ana Cláudia Peres

Publicado em dezembro 8, 2014 por Redação

Tags: escassez de água, recursos hídricos, seca

Brasil está entre os países que mais dispõem de recursos hídricos, mas enfrenta problemas sérios de distribuição, acesso e saneamento, com prejuízo à saúde e ao bem estar da população

[Radis] No sertão, há uma expressão usada para os dias em que o céu está nublado, prometendo chuva. Diz-se: “Tá bonito pra chover”. É quase uma ode à água, recurso natural precioso, bem público e direito de todos – que, apesar de os livros de história apresentarem como inesgotável, anda cada dia mais escasso. O volume total de água na Terra é de aproximadamente 1,4 bilhões de quilômetros cúbicos. Mas, de acordo com o Relatório Global sobre Desenvolvimento e Água 2014, produzido pela Organização das Nações Unidas (ONU), apenas 2,5% desse total (cerca de 35 milhões) é de água doce. Descontado o volume que está na forma de gelo e aquele que se encontra no subsolo, tudo o que resta da água acessível do planeta, disponível em rios e lagos, é praticamente um fiozinho: 0,3%.

O valor da água é incalculável. O Brasil, gigante, possui 12% das reservas de água fresca do mundo, segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), responsável pela regulação e gestão dos recursos hídricos no território nacional. Isso deixa o país em posição privilegiada em comparação com outras regiões do globo, mas não é capaz de minimizar os problemas dos recursos hídricos, que vão da distribuição ao acesso – do Oiapoqui ao Chuí, são 40 milhões de brasileiros sem acesso à água potável, 21 milhões desses em áreas rurais; além disso, apenas 46% dos domicílios brasileiros têm coleta de esgoto. O que está errado? Como garantir água em quantidade e qualidade para todos, como dita a Constituição de 1988 e a Assembleia Geral da ONU, de 2010, ao reconhecer formalmente o direito humano à água e ao saneamento?

O especialista em recursos hídricos da ANA, Marco Neves, diz que os recursos hídricos não estão distribuídos homogeneamente ao longo do território brasileiro, o que explicaria (apenas em parte) o problema. “No Brasil Oeste, que correponde a áreas da Amazônia, Tocantins e Pantanal, por exemplo, nós temos uma disponibilidade hídrica muito alta e uma baixa concentração populacional”, aponta. Só a região Amazônica acumula 70% da água potável brasileira. Enquanto isso, no Brasil Leste, da Costa Atlântica, que vai desde o semiárido nordestino, com um clima de poucas chuvas e muitos rios temporários, até o Rio Grande do Sul, a situação se inverte: baixa disponibilidade de água – ao Nordeste, cabe menos de 5% –, alto consumo e contingente populacional elevado.

Bacias doentes

Para além da distribuição desigual, dos fatores naturais e eventos climáticos extremos (secas e enchentes) e do aquecimento global decorrente da ação humana que se agrava, especialistas concordam que o Brasil tem cuidado muito mal dos seus recursos hídricos, que a população desperdiça água e que o poder público enfrenta problemas com os planos de contingenciamento ou para implementar medidas viáveis e de baixo custo. “O problema não é a falta ou o excesso de chuvas”, diz categórico o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e assessor de Meio Ambiente do Crea-RJ Adacto Ottoni. “O problema é que nossas bacias hidrográficas estão doentes, há desmatamentos, impermeabilização do solo, degradação dos rios, assoreamento”, acrescenta, sugerindo que é preciso investir no reflorestamento e nas obras de intervenção para aumentar a retenção e infiltração da água de chuva no lençol freático.

Adacto avalia ainda que a crise que atingiu em cheio o Sistema Cantareira, em São Paulo, deixando sem água mais de 60 cidades (ver matéria na página XXX), é apenas um reflexo do descaso com os mananciais. Ele lembra que o Código Florestal Brasileiro protege os rios e corpos hídricos, proibindo a ocupação, a não ser por vegetação nativa, em curvas de morro, encostas e inclinações acima de 45 graus. “Acontece que essas leis estão na gaveta. A ocupação ocorre de forma desordenada, o poder público não toma as medidas cabíveis e quem paga por essas negligência é a população e o meio ambiente”, diz. “É preciso viabilizar o saneamento, reduzindo a poluição ambiental e garantindo a saúde pública”.

Para o pesquisador Paulo Barrocas, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/ Fiocruz), o descuido com os recursos hídricos fica evidente com a contaminação dos rios, o desmatamento das margens, o assoreamento dos leitos e a execução de intervenções que alteram o ciclo natural dos ecossistemas, como a retilinização dos cursos dos rios ou a impermeabilização de leitos e margens. “Estamos degradando nossas fontes de água superficiais, sobretudo próximas as grandes áreas metropolitanas do país, o que tem levado a necessidade de buscar água cada vez mais distante das cidades e, portanto, mais difíceis e mais caras de se obter”, avalia Paulo.

Segundo a ANA, os piores índices de qualidade de rios e lagos estão localizados próximos às grandes metrópoles. O Índice de Qualidade da Água (IQA), medido pela agência, monitora 1,1 mil pontos no país para detectar o nível de habilitação dos recursos hídricos. De acordo com os dados do estudo mais recente, mais de 80% dos pontos apresentam boa qualidade. No entanto, a análise dos 550 pontos localizados próximos às áreas urbanas mostra que só 48% deles encontram-se em boas condições.

Água é saúde

Imagine um dia sem beber água, dois sem cozinhar, uma semana sem banho. A água é a mais básica das necessidades humanas e a prioridade para o consumo pessoal é garantida por lei. Não é possível viver sem água e a escassez desse recurso provoca impacto direto na saúde pública, podendo deflagar surtos de doenças na população. À Radis, Paulo explica que a falta de serviços de saneamento tem consequência direta no bem estar da população. “Nestes serviços estão incluídos não só a oferta de água com qualidade e em quantidade adequadas, mas também a existência de sistemas de esgotos, de gestão dos resíduos sólidos e de drenagem”, diz.

Por exemplo, a ausência de sistema de abastecimento de água potável fará com que as pessoas passem a buscar fontes alternativas pouco seguras, ficando expostas ao risco de contrair doenças. É o caso da procura por água em poços desativados, da reserva de água em recipientes improvisados ou da compra de galões de água de qualidade duvidosa. Além disso, ele acrescenta que pouca água disponível afeta a higiene das pessoas e dos locais onde vivem. “E a falta de higiene adequada é em si outro fator de risco para se infectar por outras doenças”, diz Paulo. “O consumo de água de qualidade protege a saúde, previne doenças e determina a qualidade de vida do homem”.

Doenças

Há inúmeras doenças de veiculação hídrica, se entendemos que o termo se refere àquelas transmitidas pelo consumo de água ou alimentos contaminados por fezes. Doenças diarreicas, hepatite A, febre tifoide e paratifoide, cólera e parasitoses, estão entre elas. Há um termo apropriado para classificá-las, de acordo com o pesquisador da Fiocruz: Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI), justamente por considerar outras formas de transmissão, como a picada de insetos – a exemplo da dengue e da malária – ou o contato do corpo com águas contaminadas, caso da leptospirose e da esquistossomose.

“As DRSAI estão associadas ao abastecimento de água deficiente ou à inexistência de esgotamento sanitário ou à contaminação por lixo ou às condições precárias de moradia ou ainda à drenagem imprópria, sendo na maioria das vezes uma mistura destes fatores”, diz Paulo. No atual cenário brasileiro, os índices de proliferação dessas doenças é considerado alto. Os dados mais recentes disponíveis no site do Datasus/MS, referentes ao período de janeiro a setembro deste ano, sobre internações por doenças diarreicas mostraram 212 mil internações em todo país, sendo a maioria, cerca de 50%, na região Nordeste. Em relação à hepatite A, foram diagnosticados 2,8 mil casos em 2014, sendo a maior incidência no Norte e Nordeste, com 39% e 36%, respectivamente. De acordo com a ONU, 3,5 milhões de pessoas morrem no mundo, anualmente, por problemas relacionados ao fornecimento inadequado da água, à falta de saneamento e à ausência de políticas de higiene.

Por outras palavras, Paulo explica ainda que, se não temos sistemas de esgotamento sanitário, as fezes acabam sendo lançadas no ambiente de forma inapropriada contaminando solos e águas com organismos patogênicos. Ao entrar em contato com esses ambientes, pisando descalço no chão ou consumindo água sem qualidade, a população pode ser infectada por bactérias, vírus e parasitas.

Em um contexto ainda longe do ideal, o pesquisador diz que a oferta pelo poder público dos serviços de saneamento adequado e a atuação articulada e integrada do Sistema de Vigilância em Saúde, no âmbito do Sistema Único de Sáude (SUS), têm papel fundamental na prevenção e controle das DRSAI.

Segurança hídrica

Um dos maiores desafios para a garantir água em qualidade e quantidade para todos no Brasil, de acordo com o especialista da ANA, Marco Neves, é a integração entre a Política Nacional de Recursos Hídricos e as políticas setoriais – indústria, energia, transporte, saneamento, irrigação. “São usos de água e precisam andar juntos”, diz, indicando um segundo desafio, ainda mais árduo. Trata-se de construir um ambiente de segurança hídrica no Brasil, o que significa disponibilizar água de qualidade para todos os usos e para manutenção da própria natureza, dos próprios ecossistemas. Marco diz que já está em curso a construção de um Plano Nacional de Segurança Hídrica, por parceria entre a ANA e o Ministério da Integração Nacional, cujo objetivo maior é suprir a demanda por água no país, algo que, em sua opinião, é totalmente viável.

As pesquisas científicas também podem contribuir, e muito, para esse ambiente de segurança hídrica. Referência no assunto, o professor aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Carlos Eduardo Morelli Tucci disse à Radis que a pesquisa pode desenvolver tecnologia mais eficiente voltada para o clima brasileiro e para áreas urbanas densas com pouco espaço ou, ainda, para controle e tratamento de águas com toxinas, além de redes eficientes de coleta e separação de sistemas.

Mas não é só. As pesquisas também podem produzir evidências e dados científicos sobre os diferentes aspectos do problema, fornecendo informação qualificada para a população e o poder público. Na Fiocruz, o Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (ICICT) desenvolveu o Atlas Água Brasil, em parceria com o Ministério da Saúde, um sistema digital de visualização e análise de indicadores sobre a qualidade da água por município.

Na Ensp, está em andamento estudo sobre a qualidade da água de Manguinhos, no Rio de Janeiro, por meio da coleta de amostras em três unidades de saúde, 12 unidades escolares e em cerca de 250 domicílios. “A partir das análises de vários parâmetros de potabilidade, poderemos fornecer um retrato da qualidade da água consumida no território para a população, identificar os maiores problemas e riscos observados durante o estudo e indicar possíveis medidas para mitigar estes problemas”, diz Paulo Barrocas, que coordena o estudo.

Por Ana Cláudia Peres, na Revista Radis n° 147

Publicado no Portal EcoDebate, 08/12/2014

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A CRISE HÍDRICA EM SÃO PAULO E NO SÃO FRANCISCO

A crise hídrica em São Paulo e no São Francisco, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

Publicado em novembro 5, 2014 por Redação

Tags: recursos hídricos, rio São Francisco, seca

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sistema cantareira

[EcoDebate] Alguém pode imaginar que São Pedro (o santo que controla as chuvas) está brigado com São Paulo e com São Francisco. Mas sem querer entrar nos meandros dos bastidores do céu, considero que a falta d’água é um problema bem terreno.

O Brasil possui o maior volume de água doce do mundo e uma grande disponibilidade hídrica per capita. Mesmo assim sofre de escassez no meio da abundância e vive a maior crise de abastecimento da história. A falta d’água deixou de ser um problema do semiárido para atingir o Estado mais rico e populoso da Federação e até mesmo o rio da integração nacional, o velho Chico.

O mais impressionante é que em meio à maior crise hídrica dos 500 anos do Brasil, a questão foi tratada de maneira superficial na campanha eleitoral de 2014, servindo mais de arma para atacar, do que meio para solucionar. Evidentemente a crise hídrica não é culpa exclusiva nem de Aécio Neves e Geraldo Alckmin (PSDB) e nem de Fernando Haddad e Dilma Rousseff (PT), mas não houve sequer um político brasileiro, dentre os eleitos, que teve a coragem de reconhecer que a escassez de água é consequência de um modelo de desenvolvimento demoeconômico que degrada a natureza e destrói os ecossistemas em benefício de uma espécie antropocêntrica e egoísta.

As questões ecológicas e os direitos da natureza foram ignorados na campanha fratricida pelo voto e pelo controle das benesses do poder estadual e nacional. A ideologia do crescimento predominou na campanha eleitoral e não houve espaço para se discutir o decrescimento das atividades antrópicas.

A cidade de São Paulo (SP) tinha 31.385 habitantes em 1872, ultrapassou um milhão de habitantes em 1940, superou 10 milhões de pessoas no ano 2000 e se aproxima de 12 milhões em 2014. A região metropolitana de SP tem mais de 20 milhões de habitantes (o dobro da população de Portugal). São Paulo é o município mais populoso e o mais rico do Brasil. Mas a cidade se enriqueceu às custas da pauperização do meio ambiente e da depleção dos seus recursos hídricos.

O território da cidade de São Paulo é favorecido por bom volume pluviométrico e já foi recortado por belos rios, como Tietê, Pinheiros e Tamanduateí, que forneciam água, peixes, diversidade de vida animal e vegetal, além de escoarem as águas da chuva fertilizando os solos. Mas a maioria dos rios foram enterrados vivos, totalmente desfigurados, poluídos pelo lixo e dejetos humanos, tornando-se verdadeiros esgotos a céu aberto ou canalizados. Sem oxigênio, viraram “rios da morte” que exalam mau cheiro, sujeira e envergonham os cidadãos da cidade, do estado e do país.

As movimentadas avenidas 23 de Maio e Nove de Julho, por exemplo, foram construídas sobre rios canalizados. O Vale do Anhangabaú foi aterrado para dar lugar a prédios, asfaltos e estacionamentos. A especulação imobiliária venceu a riqueza da biodiversidade e o livre fluxo das águas. São Paulo deve ter, neste próximo verão, falta de água potável e, ao mesmo tempo, enchentes e alagamentos.

A sede dos paulistanos foi aplacada, em parte, pela busca de fontes mais distantes, como aquelas provenientes das nascentes dos rios que nascem no sul de Minas Gerais e que formam o rio Jaguari (que junto como os rios Camanducaia e Atibaia, formam o rio Piracicaba). No território paulista, o Rio Jaguari é represado, para captar água para o sistema Cantareira, que abastece grande parte da Região Metropolitana de São Paulo.

Essa crise não se limita à cidade de São Paulo. Dezenove municípios paulistas efetuam racionamento de água, dos quais doze ficam na região de Campinas. A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) estima que milhares de postos de trabalho já tenham sido fechados em decorrência da falta d’água. A Secretaria da Agricultura estima que a estiagem tenha reduzido as safras de café, cana, algodão e outros produtos, com grande prejuízo para a produção agropecuária.

Acontece que o desmatamento ocorrido no Estado de São Paulo nos últimos 150 anos, eliminou as matas ciliares e retirou a parte da vegetação que permitia a infiltração da água do subsolo, alimentando os lençóis freáticos. O sobre-uso dos aquíferos também contribuíram para a escassez da água subterrânea. Menos vegetação significa menor capacidade de captar CO2, contribuindo para o aquecimento global e as mudanças climáticas que aumentam os efeitos climáticos extremos, gerando muita chuva ou muita seca, deixando o clima “maluco”, em diferentes momentos.

Atualmente, os paulistanos e os paulistas estão pagando o preço de década de degradação ambiental provocada pelo modelo “extrai-produz-descarta”, que rouba as riquezas da natureza para produzir luxo e devolve lixo ao meio ambiente. A solução, apresentada por alguns políticos, de captar mais água e fazer mais reservatórios pode até satisfazer a sede e a ganância egocêntrica contemporânea, mas, indubitavelmente, vai apenas adiar e aprofundar um modelo de desenvolvimento que já se mostrou insustentável e injusto.

De fato, a humanidade tem monopolizado os recursos hídricos, transformando-os em commodities, sem respeito aos direitos da água e nem ao direito que as demais espécies vivas devem ter ao acesso às mesmas fontes da sobrevivência. Esta agressão não acontece só em São Paulo.

O rio São Francisco, um dos mais belos patrimônios naturais do Brasil, está morrendo graças à ambição, avidez, sofreguidão e cobiça do ser humano. A sêde do lucro parece ser maior do que a sêde dágua. O Rio São Francisco tem 2,7 mil quilômetros de extensão, corta 5 estados Brasileiros (MG, BA, PE, AL e SE) e sua bacia abarca 500 municípios, com uma população aproximada de 15 milhões de habitantes. As atividades antrópicas se alimentam das riquezas do rio, usam a sua energia e devolvem sujeira e poluição.

O rio está pedindo socorro, mas em vez de um projeto de recuperação e revitalização, o que o Governo Federal propõe é sugar mais água do leito, por meio da transposição. Mas o volume de água está diminuindo e o assoreamento está aumentando. Um rio que já foi navegável está virando uma pista de barro seco. Mas governo, com o projeto de transposição e a oposição, que não tem coragem de se opor, querem somente tirar mais água como se a fonte fosse inesgotável.

serra da canastra – nascente do rio São Francisco

Pela primeira vez na história, a nascente do rio São Francisco secou na Serra da Canastra, no município de São Roque de Minas. Este desastre anunciado aconteceu por conta do desmatamento e do fogo que eliminaram a vegetação que retêm as águas e abastecem os lençóis freáticos. O Parque Nacional da Serra da Canastra foi criado em 1972 com o objetivo de proteger uma área de 200 mil hectares, mas somente 71.525 hectares estão demarcados e parcialmente protegidos.

O rio São Francisco está sofrendo com o assoreamento, o desmate das matas ciliares, a erosão, o sobre uso das águas, os represamentos, a poluição dos esgotos e dos efluentes industriais, a contaminação de metais pesados e os agrotóxicos. A pesca predatória agrava a ameaça de extinção de peixes como o Surubin, o Dourado e outros peixes de piracema. A migração entre locais de alimentação e de reprodução é impedida pelas barragens hidrelétricas que são um dos principais obstáculos para a reprodução destes peixes.

Por ironia, a falta de água já compromete os grandes lagos das represas hidrelétricas que represam e impedem o livre fluxo das águas. Notícia do jornal Estado de Minas, de 13/10/2014, relata o risco de paralisação da Usina de Três Marias, que pode parar de gerar energia em novembro. Atualmente, ela opera com apenas duas das seis turbinas. Com capacidade total de 396 megawatts/hora (MWh), Três Marias tem em sua barragem apenas 4,5% do seu volume de água. Trata-se do nível mais crítico desde a inauguração, em 1962.

Em Pirapora, município do norte mineiro, há um dos mais belos trechos do rio São Francisco que atualmente (novembro de 2014) está em filetes d’água há semanas. Em alguns pontos, debaixo das duas pontes na cidade, atravessa-se a pé onde havia forte correnteza.

Existem estudiosos, como o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina, Pernambuco, que falam na “Extinção inexorável do Rio São Francisco”, caso o modelo de dominação e exploração do rio não for modificado. Um dos grandes defensores do rio São Francisco, o ambientalista Roberto Malvezzi (Gogó), alertou durante a campanha presidencial de 2014: “Assim, seja qual for o eleito, se o São Francisco depender de alguma política pública – e tantos outros rios brasileiros -, a finalização de seu assassinato é questão de tempo”.

Sem dúvida, as diversas nascentes do Velho Chico estão sendo degradadas. Nas últimas décadas, o São Francisco já perdeu três dos 16 afluentes perenes. Os rios Verde Grande, Salitre e Ipanema tornaram-se temporários, reduzindo o volume de água disponível para navegação, irrigação, pesca e geração de energia.

Por exemplo, o Parque das Andorinhas que foi criado para proteger a nascente do rio da Velhas, principal afluente do rio São Francisco, não consegue evitar as atividades ilegais de mineração e desmatamento que estavam (e ainda estão em menor monta) destruindo as fontes de água. A mineração da pedra Ouro Preto que é usada como piso de casas e jardins provoca uma grande erosão do solo, pois a terra em volta do quartizito é retirada e levada pelas chuvas, assoreando toda a área. Esta situação é agravada pelo desmatamento e pelas queimadas realizadas pela população pobre dos morros de Santana e São Sebastião, em Ouro Preto, Minas Gerais, que utilizam o fogo para fazer pastagem (para vacas, cavalos e cabras) e para a retirada de lenha para ser usada fonte de energia nas cozinhas.

Estas atividades causam danos irreparáveis, pois retiram boa parte das matas ciliares, de cabeceira e demais formações vegetais essenciais à proteção das águas das nascentes, reduzindo o fluxo de água do leito dos córregos. Como resultado, o volume de água da Cachoeira das Andorinhas vem diminuindo ano a ano, esvaziando o rio das Velhas.

O Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas disse que, com o período de estiagem, Belo Horizonte e a região metropolitana estão consumindo 85,7% da água do maior afluente do rio São Francisco. A vazão do rio ao chegar a Bela Fama está variando de 7 a 8 metros cúbicos por segundo (m3/s), quando o normal em períodos de seca como este deveria ser 14 m3/s. Somente o abastecimento urbano da Grande BH vem captando 6 m3/s, para atender 51 cidades ou 60% do volume consumido na capital e 40% nos demais municípios. O que sobra para o leito do rio é muito pouco após a retirada de água além da capacidade.

O resultado de tudo isto é que a quantidade de água que chega à foz do São Francisco está diminuindo. O povoado de Cabeço, localizado em ilha na Foz do Rio São Francisco, na divisa entre Alagoas e Sergipe, sucumbiu e, em poucos anos, o mar invadiu casas e construções da comunidade pesqueira, que tinha 400 habitantes. A completa evacuação do povoado foi concluída há 14 anos. O processo de avanço do mar sobre a vila é atribuído à degradação das nascentes, ao sobreuso das águas e às represas construídas no Rio São Francisco, como a Usina Hidrelétrica do Xingó, que reduziram a vazão do Velho Chico e abriram espaço para o mar. Grandes extensões do rio tiveram suas águas salinizadas, inviabilizando as culturas agrícolas das margens. Na foz, a antiga vila foi completamente destruída. Seu símbolo é um velho farol do século 19, que ficava em terra e hoje está a dezenas de metros da costa.

foz do São Francisco

Este processo de avanço dos oceanos não ocorre somente no rio São Francisco. A elevação do nível do mar, entre outras ameaças, prejudica os deltas dos principais rios do mundo, segundo artigo de James Syvitski e co-autores, “Naufrágio dos deltas devido às atividades humanas” (Sinking deltas due to human activities), publicado na Revista Nature Geoscience, em 2009.

Para a tristeza geral, o rio São Francisco está morrendo desde as nascentes até a foz. Evidentemente falta decisão política e recursos para recuperar as nascentes e evitar o assoreamento e o sobreuso das águas. Uma mobilização da sociedade civil em defesa do meio ambiente, da água e dos rios poderia ser a alternativa. Mas parece que as autoridades públicas consideram mais fácil e mais lucrativo fazerem grandes obras, executadas por grandes empreiteiras que vão dar material para o caixa 2 das campanhas e o marketing eleitoral.

Os problemas do Estado de São Paulo e dos cinco Estados da bacia do rio São Francisco são um sinal de alerta sobre os rumos equivocados do desenvolvimentismo nacional. A civilização brasileira pode sucumbir se não houver uma luta eficaz pelo direito da água e pelo livre fluxo dos rios. É preciso acabar com este ecocídio.

Como escrevi em artigo de 08/04/2010, sem a recuperação e a revitalização do rio São Francisco, mesmo a proposta questionável da transposição estará comprometida, pois “não haverá água suficiente para ser transposta”. As chuvas de verão podem ajudar, mas sem o respeito aos seus rios e sem a proteção ecológica, o rio São Francisco pode minguar e São Paulo pode sucumbir e experimentar um grande retrocesso que vai afetar a vida de milhões de pessoas.

Geólogos já estudam o uso do Aquífero Guarani. Porém, não é uma questão de maior acesso e maior planejamento do uso, mas principalmente falta discutir o decrescimento do abuso da água. Para além da questão da mercantilização dos recursos hídricos, existe o problema da antropogenização da água. É preciso uma gestão eficiente da demanda de água pela agricultura, pela industria, pelo setor serviço e pelos domicílios.

A atual crise hídrica do Brasil é apenas um alerta, pois situações piores devem acontecer nas próximas décadas. As agressões à natureza precisam diminuir e o modelo de desenvolvimento precisa ser repensado. O que está acontecendo no Brasil é parte do que acontece em qualquer lugar, quando se desrespeita a vida de milhões de outras espécies e os direitos da água. Ao invés de se preocupar em ser a quarta ou a quinta potência mundial, o Brasil deveria se reconciliar com seu espaço natural, respeitando-o.

Referências:

ALVES, JED. As nascentes do São Francisco. EcoDebate, RJ, 08/04/2010

ALVES, JED. A opressão do Rio Tietê. EcoDebate, RJ, 25/01/2012

ALVES, JED. A degradação do rio São Francisco. EcoDebate, RJ, 18/07/2012

ALVES, JED. GRILLO, J. Corredor ecológico Rio das Velhas-Paraopeba em Nova Lima. EcoDebate, RJ, 01/08/2013

ALVES, JED. Terra, água e estresse hídrico. EcoDebate, RJ, 19/09/2012

ALVES, JED. O crime de ecocídio e a devastação das florestas de São Paulo. EcoDebate, RJ, 22/11/2013

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José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Publicado no Portal EcoDebate, 05/11/2014

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PODEMOS CONTINUAR A COMER TANTA CARNE? Vejam o texto abaixo e tirem suas conclusões.

Podemos continuar a comer tanta carne? artigo de Esther Vivas

Publicado em março 28, 2014 por 

Tags: alimentaçãoconsumo & consumismo 

pecuária na Amazônia

 

[EcoDebate] A carne tornou-se indispensável na nossa comida. Parece que não podemos viver sem ela. Se até há poucos anos, o seu consumo era um privilégio, uma comida de dias de festa, hoje se tornou num ato quotidiano. Quiçá, inclusive, demasiado quotidiano. Precisamos comer tanta carne? Que impacto tem no meio ambiente? Que consequências para o bem-estar animal? Para os direitos dos trabalhadores? E para a nossa saúde?

O consumo de carne associa-se a progresso e modernidade. De facto, no Estado espanhol entre 1965 e 1991 a sua ingestão foi multiplicada por quatro, especialmente a de carne de porco, segundo dados do Ministério da Agricultura. Nos últimos anos, no entanto, o consumo nos países industrializados estagnou ou até diminuiu, devido, entre outras questões, aos escândalos alimentares (vacas loucas, gripe das aves, frangos com dioxinas, carne de cavalo em vez de carne de vaca, etc.) e a uma maior preocupação com o que comemos. De qualquer modo, há que recordar que também aqui, e ainda mais num contexto de crise, largos setores não podem optar por alimentos frescos nem de qualidade ou escolher entre dietas com ou sem carne.

A tendência nos países emergentes, como Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, os chamados BRICS, pelo contrário, é para aumento. Eles concentram 40% da população mundial e entre 2003 e 2012 o seu consumo de carne aumentou 6,3%, e espera-se que entre 2013 e 2022 cresça 2,5%. O caso mais espetacular é o da China, que passou em poucos anos, de 1963 a 2009, de consumir 90 quilocalorias de carne por pessoa por dia para 694, como indica o Atlas da Carne. Os motivos? O aumento da população nestes países, a sua urbanização e a imitação de um estilo de vida ocidental por parte de uma ampla classe média. De facto, definir-se como “não vegetariano” na Índia, um país vegetariano por antonomásia, converteu-se, em alguns setores, num status social.

Um consumo caro para o planeta

Mas o incremento da ingestão de carne no mundo não é gratuito e pelo contrário sai muito caro, tanto em termos do meio ambiente como sociais. Para produzir um quilo de carne de vitela, por exemplo, são necessários 15.500 litros de água, enquanto que para produzir um quilo de trigo são necessários 1.300 litros e para um quilo de cenouras 131 litros, segundo o Atlas da Carne. Então, se para satisfazer a atual procura de carne, ovos e derivados lácteos em todo mundo são precisos por ano mais de 60 mil milhões de animais de criação, engordá-los sai caríssimo. De facto, a criação industrial de animais gera fome, já que 1/3 das terras de cultivo e 40% da produção de cereais no mundo são destinados a alimentá-los, em vez de dar de comer diretamente às pessoas. E nem todos podem pagar um pedaço de carne da agroindústria. Segundo dados do Grupo ETC, 3.500 milhões de pessoas, metade dos habitantes do planeta, poderão nutrir-se com o que estes animais consomem.

Além disso, vacas, porcos e galinhas, no atual modelo de produção industrial e intensivo, são alguns dos principais geradores de mudança climática. Quem diria! Calcula-se que a pecuária e os seus subprodutos geram 51% das emissões globais de gases de efeito de estufa. De facto, uma vaca e o seu bezerro num estabelecimento de criação pecuária emitem mais emissões que um carro com treze mil quilômetros, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO). Ao comer carne nós somos corresponsáveis.

O mau trato é o lado mais cruel da pecuária industrial, onde os animais deixam de ser seres vivos para se tornarem em coisas e mercadorias. O documentário Samsara, sem cenas de violência explícita, mostra a brutalidade oculta, extrema, dos estabelecimentos de produção de carne, leite…, onde os animais mal vivem e os trabalhadores os esquartejam, golpeiam, estripam como se fossem objetos. Um modelo produtivo que tem a sua origens nos matadouros de Chicago, no início do século XX, onde a produção em linha permitia, em apenas quinze minutos, matar e cortar uma vaca. Um método tão “eficiente” que Henry Ford o adotaria para a produção de automóveis. Para o capital, não há diferença entre um carro e um ser com vida. E para nós? A distância entre o campo e o prato tornou-se tão grande nos últimos anos que como consumidores muitas vezes já não estamos conscientes que por detrás de uma salsicha, de uma lasanha ou de um esparguete à carbonara havia vida.

Trabalho precário

As condições laborais de quem trabalha nestes estabelecimentos deixa muito a desejar. De facto, entre os animais que são sacrificados e os empregados que lá trabalham há mais pontos em comum do que estes últimos possam imaginar. Upton Sinclair na sua brilhante obra A selva, onde retrata a precária vida dos trabalhadores dos matadouros de Chicago nos primeiros anos do século passado, deixa claro: “Ali se sacrificavam homens tal como se sacrificava gado: cortavam os seus corpos e as suas almas em pedaços e convertiam-nos em dólares e cêntimos”. Hoje, muitos matadouros contratam em condições precárias pessoas imigrantes, mexicanas nos Estados Unidos, como retrata o excelente filme de Richard Linklater Fast Food Nation, ou da Europa do Leste nos países do centro da União Europeia. Cem anos depois, a obra de Sinclair continua a ter plena atualidade.

A indústria pecuária tem, além do mais, um efeito nefasto sobre a nossa saúde. O fornecimento sistemático de remédios aos animais, de maneira preventiva para que possam sobreviver em péssimas condições nos estábulos até ao matadouro e para obter uma engorda mais rápida, e com menos custo para a empresa, leva a que se desenvolvam bactérias resistentes a estes fármacos. Algumas bactérias que facilmente podem passar às pessoas através da cadeia alimentar, entre outras formas. Na atualidade, segundo aOrganização Mundial da Saúde, são dados mais antibióticos a animais sãos que a pessoas doentes. Na China, por exemplo, calcula-se que são dados aos animais mais de 100 mil toneladas de antibióticos por ano, a maioria sem qualquer tipo de controle, e nos Estados Unidos, 80% dos antibióticos vão para o gado, como indica o Atlas da Carne. E isto não é tudo, a própria FAO reconhece que nos últimos quinze anos, 75 % das doenças humanas epidérmicas têm a sua origem nos animais, como a gripe das aves ou a gripe porcina, consequência de um modelo insalubre de produção pecuária.

Quem ganha com este modelo? Obviamente que nós não, ainda que nos queiram fazer crer o contrário. Algumas multinacionais controlam o mercado: Smithfield Foods, JBS, Cargill, Tyson Foods, BRF, Vion. E obtêm importantes lucros com um sistema que contamina o meio ambiente, provoca mudanças climáticas, explora os trabalhadores, maltrata os animais e põe-nos doentes.

Uma pergunta se impõe: podemos continuar a comer tanta carne?

*Artigo publicado inicialmente em Etselquemenges.cat, a 18/02/14. Tradução de espanhol para português de Carlos Santos para Esquerda.net.

**Esther Vivas, Colaboradora Internacional do Portal EcoDebate, é ativista e pesquisadora em movimentos sociais e políticas agrícolas e alimentares, autora de vários livros, entre os quais “Planeta Indignado”. Esther Vivas é licenciada em jornalismo e mestre em Sociologia. Seus principais campos de pesquisa passam por analisar as alternativas apresentadas por movimentos sociais (globalização, fóruns sociais, revolta), os impactos da agricultura industrial e as alternativas que surgem a partir da soberania alimentar e do consumo crítico.

+info: http://esthervivas.com/portugues

EcoDebate, 28/03/2014


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