Declínio do império americano e populismo nas eleições dos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

Declínio do império americano e populismo nas eleições dos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz AlvesPublicado em fevereiro 24, 2016 por RedaçãoTags: economia, modelo de desenvolvimento, política 4 2  4  [EcoDebate] O declínio do poderio da economia dos Estados Unidos da América (EUA) é um fato incontestável. Segundo dados do FMI, a percentagem do Produto Interno Bruto (PIB) americano no PIB mundial caiu de 23% em 1980, para pouco acima de 15% em 2015, devendo ficar abaixo de 15% em 2020. A cada ano o peso da influência da economia americana fica menor. Os pessimistas dizem que a continuidade deste processo é irreversível e inevitável e significa o declínio contínuo do império americano. Os otimistas dizem que este processo é natural e até positivo, pois outros países passam a ter responsabilidades com a economia internacional e passam a dividir as responsabilidades globais.O fato é que a economia dos EUA tem tido um desempenho abaixo da média mundial e esta tendência vem se agravando nas últimas décadas, devendo ser a marca dominante no século XXI. Há vários economistas de renome, como Robert Gordon e Larry Summers que falam em estagnação secular. Ou seja, a prevalência de baixas taxas de crescimento econômico no século XXI será o novo normal e o baixo crescimento da renda per capita deverá inviabilizar o processo de mobilidade social ascendente que prevaleceu no passado. E o pior, o crescimento da desigualdade faz com que a parcela do 1% mais rico do país aumente sua parcela de riqueza, enquanto diminui a parcela dos 99% da população. Assim, os EUA podem ser caracterizados como uma potência mundial decadente e com problemas sociais crescentes.A tendência à estagnação secular fica claro no gráfico abaixo (Tverberg, 2016). Na década de 1950 o PIB americano crescia em média em torno de 5% ao ano, caindo para 3% na média anual, entre os anos de 1970 e 2000 e encontrando-se em torno de 2% ao ano nas duas primeiras décadas do século XXI. Há sinais que o ritmo vai diminuir mais ainda no médio e longo prazo devido aos ventos contrários, apontados por Gordon (2016): 1) aumento das desigualdades sociais, 2) educação deteriorada; 3) degradação ambiental; 4) maior competição provocada pela globalização; 5) envelhecimento populacional; e 6) o peso dos déficits e do endividamento privado e público.  A dívida pública líquida dos EUA estava em torno de 40% do PIB na década de 1930 e disparou durante a Segunda Guerra, ultrapassando 100% do PIB. Com a prevalência da hegemonia americana no mundo e o alto crescimento a dívida caiu para níveis muito baixos (menos de 30% do PIB) até o final dos anos 1970. No governo Ronald Reagan (e depois George Bush pai) houve aumento dos gastos militares e redução dos impostos dos ricos, fazendo a dívida aumentar rapidamente. Mas com o fim da Guerra Fria e o fim da URSS, os gastos militares diminuíram no governo Bill Clinton e a percentagem da dívida como proporção do PIB também diminuiu. Contudo, no governo George Bush filho o percentual da dívida aumentou rapidamente e disparou no governo Barack Obama, devido às medidas adotadas para estimular a economia.Em fevereiro de 2016, a dívida pública em poder do público era de US$ 13,6 trilhões (cerca de 75% do PIB), mas a dívida pública bruta atingiu US$ 19 trilhões (104% do PIB). A perspectiva é de aumento da dívida, pois o orçamento é estruturalmente deficitário. Desta forma, a solvência do governo central está constantemente em questão e o Congresso está sempre querendo fazer cumprir a obrigação de manter a dívida abaixo de um valor fixado por lei. Neste ambiente, qualquer proposta para aumentar impostos e aumentar gastos se torna um tema politicamente explosivo. Dificilmente um presidente, qualquer que seja a ideologia, conseguirá aumentar os gastos do governo, nem por uma causa justa.  O enorme endividamento publico nos anos 2000 não teve o efeito de acelerar as taxas de crescimento do PIB, como vimos nas figuras anteriores. O gráfico abaixo mostra que o crescimento do PIB nominal dos EUA aumentou 1.700% entre 1970 e 2015, mas a dívida aumentou mais do dobro (3.900%). A economia real cresce pouco, mas a dívida cresce muito. Diversos analistas mostram que a economia americana sobrevive em função do endividamento e de uma bolha de crédito. Este caminho é insustentável. Mais cedo ou mais tarde a bolha vai estourar e a economia vai entrar em recessão, agravando os problemas sociais.  O início de 2016 foi marcado pela volatilidade do mercado de capitais. O “Mercado Urso” é um termo utilizado pelos analistas financeiros para descrever tendência de baixa, geralmente com perdas acima de 20% a partir do pico. Na crise atual, a tendência de baixa começou nas ações do setor de energia (principalmente petróleo), depois nas atividades extrativistas e atingiu o setor bancário, abalado pela possibilidade ampliação de juros negativos, como adotado no Japão. O desce e sobe vai continuar.  A balança comercial americana que era equilibrada até 1975

Fonte: Declínio do império americano e populismo nas eleições dos Estados Unidos, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

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O sexênio (2011-16) perdido e a crise fiscal, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

O sexênio (2011-16) perdido e a crise fiscal, artigo de José Eustáquio Diniz AlvesPublicado em fevereiro 3, 2016 por RedaçãoTags: economia, modelo de desenvolvimento 0 0  0“No inferno os lugares mais quentes são reservados àqueles que escolherama neutralidade em tempo de crise”. Dante Alighieri[EcoDebate] A economia brasileira cresceu mais de 7% ao ano entre 1950 e 1980, bem superior a média de 4 a 5% da primeira metade do século XX. Foi um dos maiores crescimentos do mundo. Mas o modelo desenvolvimentista entrou em crise a partir de 1981 e, mesmo apresentando oscilações cíclicas, reduziu muito o crescimento do PIB nas décadas seguintes. Os anos 80 foram definidos como a primeira década perdida. Nos anos 90, a partir do Plano Real, elaborado no governo Itamar, houve redução da hiperinflação e uma retomada moderada da economia. Na primeira década do século XXI, houve crescimento ainda maior do PIB em relação aos anos 90, mas muito aquém dos chamados “trinta anos de ouro”. As linhas azuis do gráfico mostram as taxas anuais de crescimento do PIB e a linha vermelha a média móvel do sexênio.Como se verifica, os seis primeiros anos do governo da presidenta Dilma Rousseff romperam com um período de recuperação econômica e representaram desempenho diametralmente oposto ao “quinquênio virtuoso”, que aconteceu no governo Lula, de 2004 a 2008 (ALVES, 2009).O sexênio 2011 a 2016 já pode ser considerado o pior dos últimos 116 anos, ganhando o título de menor crescimento do PIB da história da República (desde 1901), perdendo até para o famigerado período Sarney-Collor (sexênio 1987-1992). Com queda do PIB de 3,8% em 2015 e 3,5% em 2016 (segundo a última projeção do FMI), o sexênio de 2011-16 terá uma média de crescimento de 0,16%, três vezes menor do que 0,44% do sexênio Sarney-Collor. Em 116 anos somente duas vezes a média do sexênio ficou abaixo de 1%. Como o crescimento demográfico anual está em 0,8% ao ano, a redução da renda per capita e empobrecimento geral da nação será sentido por mais de 200 milhões de habitantes.O Brasil vive a sua crise mais séria desde a independência. Séria pelas consequências imediatas e séria porque está matando qualquer futuro promissor e qualquer possibilidade de melhora no médio e longo prazos. O sexênio perdido é o prenúncio de um segundo decênio perdido e, provavelmente, um futuro perdido. As projeções do FMI, de janeiro de 2016, indicam que o Brasil cresce muito menos do que a economia da América Latina e puxa a média mundial para baixo. Em 2015, o Brasil (junto a Venezuela) foi o patinho feio da economia internacional, sendo que as principais causas do colapso são autoprovocadas. Houve redução da renda per capita em 2014, 2015 e 2016. O FMI já prevê crescimento zero para o Brasil em 2017. Será, portanto, o quadriênio (2014-17) do empobrecimento acelerado. Somente em 2015, o Brasil perdeu 1.542.371 (um milhão, quinhentos e quarenta e dois mil e trezentos e setenta e um) postos de trabalho celetistas, segundo dados do Caged, do ministério do Trabalho. A quantidade de pessoas ocupadas na região metropolitana de São Paulo é menor hoje em dia do que a cinco anos atrás, segundo dados do Dieese/Seade.O mais impressionante é que a economia teve baixo desempenho em um momento em que o gasto do governo foi grande e houve déficit primário. O rombo nas contas do governo central é recorde e o déficit primário chegou a R$ 111 bi em 2015. Impressiona a escalada do déficit nominal que chegou a quase 10% do PIB em 2015, sendo que em dezembro de 2010 (ano em que a economia cresceu 7,5%), o déficit nominal acumulado em 12 meses estava em 2,41% do PIB. Agora ultrapassou todos os limites do razoável. Desta forma, a dívida pública sofreu em 2015 a maior alta, passando de 57,2% do PIB para 66,2% do PIB (Produto Interno Bruto) em dezembro de 2015, segundo o Banco Central. Em termos nominais, o endividamento passou de R$ 3,252 trilhões para R$ 3,928 trilhões. Ou seja, o governo gasta mais do que arrecada, se endivida e assim mesmo a economia vai para o buraco e a desocupação aberta já ultrapassa 10 milhões de desempregados em janeiro de 2016 (fora o subemprego e o desalento).O Brasil está na situação em que os economistas chamam de “Dominância fiscal”. É um quadro em que o desarranjo das contas públicas se autoalimenta e as políticas monetárias e de renda perdem a capacidade de conter a inflação via aumento dos juros. Aliás, os juros altos só agravam as finanças públicas, aumentando valor da dívida e tornando ineficazes as propostas de ajuste fiscal. Ou seja, o Brasil entrou em uma situação de “déficit primário crônico” e como não possui governança para mudar a situação, a crise econômica tende a se agravar. Se a dívida estivesse crescendo para melhorar o investimento produtivo, social e ambiental era justificado. Mas dívida alta e juros altos só favorecem aos ricos. Esta é a realidade brasileira. Por conta disto, ainda em outubro de 2015, Nouriel Roubini (FSP, 13/10/2015) disse: “O Brasil está a beira do p

Fonte: O sexênio (2011-16) perdido e a crise fiscal, artigo de José Eustáquio Diniz Alves | Portal EcoDebate

BIOECONOMIA

A bioeconomia: Uma proposta com futuro, artigo de Iñaki San Sebastián

Publicado em agosto 18, 2011 por HC

Tags: economiamodelo de desenvolvimentoreflexão

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Precisamos de uma bioeconomia local e planetária que dê mais valor ao “saber viver” do que ao “saber fazer”. O comentário é de Iñaki San Sebastián em artigo publicado no sítio www.atrio.org, 10-08-2011. A tradução é do Cepat.

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A Economia, as pessoas e o meio ambiente

A Economia, As Pessoas e o Meio Ambiente, artigo de Marcus Eduardo de Oliveira

Publicado em maio 12, 2011 por HC

Tags: consumo & consumismoeconomiasociedade

[EcoDebate] Indiscutivelmente, não há como refutar uma assertiva: crescer economicamente é usar o meio ambiente e, em decorrência desse atual “uso”, crescer significa, grosso modo, “destruir”. Dessa forma, essa premissa pode ser assim reescrita: “Consome-se, logo, destrói-se”. “Produz-se mais, logo, agride-se mais”.

Pois bem. Numa sociedade centrada no uso e na força do dinheiro como elemento potencializador do consumo, outra premissa tende, por primazia, a se estabelecer: “o consumo consome o consumidor”, como diz acertadamente Frei Betto em “A Mosca Azul”.

No entanto, paira diante disso uma crucial e instigadora pergunta: como produzir para atender a desejos de consumo cada vez mais ilimitados se há visivelmente limites e pré-condições impostas e conhecidas pela natureza que impossibilitam, sobremaneira, esse atendimento em escala crescente?

Como há desejo de prontamente atender as necessidades mercadológicas impostas pelo apelo consumista, por sinal cada vez mais voraz, deve-se ter em conta aquilo que Clóvis Cavalcanti chama a atenção com bastante veemência: “mais economia implica menos ambiente”.

Na esteira dessa análise, frequentemente temos visto a incidência de um equívoco conceitual que impera no seio da economia tradicional insistindo em não diferenciar crescimento (aumento – quantitativo) de desenvolvimento (melhoria – qualitativa).

De um lado têm-se a receita tradicional da macroeconomia, qual seja: buscar o crescimento econômico ilimitado. Do outro, têm-se a questão ecológica que atesta a não existência de recursos naturais em quantidades disponíveis para a ocorrência desse tal crescimento.

Conquanto, o que precisa ficar esclarecido é que uma maior produção econômica irá derrubar mais florestas, irá agredir o solo, usar mais água, o ar, a energia, pondo em risco a estabilidade do clima que, por sinal, já vem capenga dada a agressão constante do processo produtivo sobre as coisas da natureza.

Outrossim, crescer além da conta significa aumentar o intercâmbio global de produtos, o que resulta enfraquecer substancialmente o mercado interno em nome do exclusivo atendimento ao modelo de globalização que recomenda como “receita de sucesso” que tenhamos sempre a geladeira repleta de produtos importados.

Ora, é simplesmente insano fazer com que um ketchup, por exemplo, vindo dos Estados Unidos “viaje”, às vezes, mais de 10 mil quilômetros para chegar ao mercado brasileiro quando poderia ser produzido domesticamente e “viajar” menos de 1.000 km para chegar às mesas dos brasileiros. Há um gasto energético intenso envolto nessa “viagem” do ketchup de fora para cá que é altamente agressivo sobre o meio ambiente e potencialmente gerador de CO2. Tomemos outro exemplo: a fruta nectarina produzida em Badajoz, na Espanha, “viaja” quase 400 quilômetros de caminhão queimando combustível até chegar a Portugal, no Porto de Lisboa. De lá vem ao Brasil, chegando ao Porto de Santos vinte dias depois. Imaginemos o quanto não foi gasto em termos energéticos nesse processo.

Isso é inadmissível numa sociedade que já consome em energia e recursos o equivalente a um planeta e 1/3. Acreditar nesse modelo é continuar jogando terra sobre a capacidade de se obter desenvolvimento, pois isso está longe de melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Portanto, diante disso há outra assertiva que não pode ser refutada: se a economia desde seus estudos iniciais emergidos da Filosofia Moral tem como fito precípuo promover o bem-estar das pessoas é impossível aceitar pacificamente que os modelos econômicos continuem ignorando dois elementos fundamentais, as pessoas e o meio ambiente.

Definitivamente, a economia (ciência) só possui sentido de existência se, e somente se, incorporar em suas análises as pessoas e passar, de forma definitiva, a tratar com relevância a questão ambiental, visto que depende dessa para tudo. Historicamente, tanto as pessoas como a questão ambiental tem sido relegadas a um segundo plano, numa visão míope da economia que se sobrepuja arrogantemente sobre o meio ambiente, não reconhecendo ser apenas um subsistema desse meio ambiente. Não incorporando em seus modelos e análises as pessoas e o ecológico, a ciência econômica tende a continuar como está: apenas respondendo pelo crescimento e fechando os olhos para o crucial, o desenvolvimento sócio-ambiental-humano. Não trilhando os caminhos que conduzem a um sistema econômico mais fraterno e ambientalmente saudável, fica a economia cada vez mais longe de seu pressuposto elementar nascido com o intuito de proporcionar melhoria de vida a todos.

Marcus Eduardo de Oliveira é economista e professor de economia da FAC-FITO e do UNIFIEO, em São Paulo. É articulista do Portal EcoDebate, do site “O Economista”, da Agência Zwela de Notícias (Angola) e do jornal Diário Liberdade (Galiza, Europa).
Contatos:
e-mail – prof.marcuseduardo@bol.com.br
Twitter – http://twitter.com/marcuseduoliv

EcoDebate, 12/05/2011

Desigualdade limita bem-estar da sociedade

Desigualdade limita bem-estar da sociedade

Por Paulo Itacarambi*

09/02/2011 – Muito já se discute sobre os limites do crescimento econômico em contraposição aos recursos oferecidos pelo planeta. Ao mesmo tempo que tirou milhões de pessoas da pobreza, elevando-as ao patamar de consumidores, o ritmo incessante no aumento do PIB dos maiores países emergentes, nos últimos anos, também trouxe uma nova reflexão: será possível suportar o padrão de consumo das sociedades ricas ou é necessário criar um novo padrão?

Agora, outras discussões bastante pertinentes vêm juntar-se à primeira questão: padrão de consumo pode ser visto como sinônimo de qualidade de vida e bem-estar? É possível melhorar o bem-estar sem crescimento ou ampliar a qualidade de vida sem que isso represente aumento no consumo?

A lógica econômica sempre colocou o crescimento, com o conseqüente aumento de renda, como uma solução em si mesma para a melhoria da qualidade de vida das pessoas. Mas uma série de economistas começa a discutir com mais profundidade a adoção de um modelo de desenvolvimento sustentável a ser levado em conta num futuro imediato.

Um exemplo desse movimento pode ser visto no livro O Que os Economistas Pensam sobre Sustentabilidade, organizado por Ricardo Arnt, que reúne depoimentos de 15 renomados economistas brasileiros e sua visão sobre o tema. Há entre eles o consenso de que é necessário ampliar e evoluir na qualidade dos debates sobre sustentabilidade e desenvolvimento sustentável.

Um dos economistas participantes do livro acaba de fazer uma interessante reflexão sobre o assunto. Em artigo publicado na última sexta-feira, no jornal Valor Econômico, André Lara Rezende coloca em xeque a visão tradicional da economia de que, se a economia crescesse e a renda aumentasse, todos os demais indicadores de bem-estar estariam contemplados. Segundo ele, para as pessoas de renda mais baixa, a equação crescimento econômico e qualidade de vida se harmoniza perfeitamente, já que a ausência de uma renda que poderíamos chamar de básica impossibilitaria garantir qualidade de vida e bem-estar. Mas, quando a renda passa a contemplar as necessidades básicas, seu aumento não irá significar automaticamente uma melhoria na qualidade de vida.

Para fazer essa afirmação, Lara Rezende baseou-se num estudo realizado por dois médicos infectologistas ingleses, Richard Wilkinson e Kate Pickett, que publicaram um livro intitulado Spirit Level. Para os autores, a partir de um determinado nível de renda, a redução das desigualdades contribui mais para o bem-estar geral do que o simples crescimento econômico. Até mesmo o aumento na expectativa de vida não mais ocorre a partir de um determinado nível de renda. Uma controversa equação que contrapõe renda e bem-estar.

Essa conclusão parece bem interessante e podemos até mesmo constatar sua veracidade em uma situação vivida aqui no Brasil pelas nossas denominadas classes privilegiadas. Podemos observar pessoas vivendo em condomínios fechados, contratando seguranças privados, andando em carros blindados. Essa constante preocupação com a segurança estaria reduzindo o bem-estar proporcionado por uma boa renda.

Os médicos ingleses concluem em seu livro que a desigualdade de renda está diretamente associada à piora de indicadores de bem-estar e acaba por causar menor expectativa de vida, aumento na incidência de doenças, maior taxa de homicídios e até mesmo, dizem eles, um incremento da delinqüência juvenil e da gravidez adolescente.

Claro que os indicadores de bem-estar tendem a ser piores para os mais pobres, mas, quanto mais extremas forem as desigualdades, piores serão esses indicadores, e não apenas para os pobres, mas também para os ricos.

Portanto, como eles afirmam, a desigualdade social interfere diretamente no alcance da felicidade. Uma sociedade em que haja menos pobres será uma sociedade mais feliz. Simples assim!

O estudo conclui que a redução nos níveis de desigualdade melhora a vida dos mais pobres, obviamente, mas também contribui para melhorar a daqueles com renda mais alta. Pois proporciona, entre outros avanços, a diminuição dos conflitos e da tensão latente ocasionados por grandes diferenças sociais.

Essa análise vai ao encontro do que discutimos em 17/1, no espaço CBN, quando falamos da dificuldade das empresas em se comunicar com a nova classe média beneficiada pela migração social dos últimos anos no Brasil. Na ocasião, afirmamos que quebrar paradigmas, vencer preconceitos e buscar os caminhos de um desenvolvimento mais sustentável são bandeiras defensáveis do ponto de vista moral, mas também são condições sine qua non para o futuro dos negócios. São mudanças que beneficiam a todos, empresários, consumidores, enfim, todos os cidadãos brasileiros.

Longe de situar essa análise como um libelo anticapitalista ou até mesmo socialista, o que André Lara Rezende levanta em seu artigo é o limite de satisfação das pessoas proporcionada pelo crescimento econômico. Ele acredita ser possível transitar para uma sociedade menos consumista e mais igualitária sem com isso comprometer o dinamismo de uma economia de mercado ou interferir nas liberdades individuais.

O certo é que, se formos capazes de construir um mundo mais equilibrado, justo e sustentável do ponto de vista social e ambiental, com certeza teremos a chance de garantir uma melhor qualidade de vida para todos os habitantes do planeta.

Temos convicção que, se mais economistas participarem com seriedade do debate, colocando a sustentabilidade no centro das discussões, teremos um aumento significativo da massa crítica, o que será vital para encontrarmos bons caminhos que apontem para um futuro mais desejável.
*Paulo Itacarambi é vice-presidente executivo do Instituto Ethos

http://www.rts.org.br/artigos/artigos_-_2009/desigualdade-limita-bem-estar-da-sociedade