A sociedade de consumo e o descarte de resíduos, artigo de Marcos Mol

A sociedade de consumo e o descarte de resíduos, artigo de Marcos Mol

Publicado em abril 4, 2013 por HC

Tags: consumo & consumismo, lixo, resíduos sólidos

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[EcoDebate] Um grave problema ambiental decorrente dos hábitos da sociedade contemporânea é o consumismo desenfreado e a geração de resíduos decorrente dele. A pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Flávia Passos Soares, apresentou uma discussão riquíssima em sua tese de doutorado que versa sobre a descartabilidade do humano e a dinâmica do consumismo na globalização. Segundo a autora, a descartabilidade surge na sociedade através da relação histórica que se estabeleceu entre prazer e consumo privado, e ainda, por meio da expansão ilimitada da produção de bens em relações de mercado. Dessa forma, o consumo conseguiu se estender a todos os registros da história, comunicação e cultura e adquiriu um status de prioridade perante os demais valores, pois são aceitos quaisquer meios para acessar o estilo de vida invejado socialmente, que depende do consumo constante de inúmeros produtos e serviços cada vez mais atraentes.

A sociedade de consumo é construída desde a base, por meio de investimentos nas gerações por vir. O filósofo e pesquisador Noam Chomsky aponta “o poder da indústria de propaganda, ao destacar que nos EUA, um em cada seis dólares é gasto em marketing, e que o bombardeio diário de publicidade e propaganda pela televisão atua no homem moderno desde a infância. Com isso, as crianças são educadas nos ideais da cultura de consumo, e irão se transformar em indivíduos passivos, isolados e com pouca oportunidade de escolha”.

Com a função de induzir ainda mais ao consumo, o mercado passa então a elaborar produtos adequados a essa população consumista. Segundo Flávia Soares, “o ritmo acelerado de descarte ditado pelo mercado imprime uma obsolescência programada aos artigos à venda. A não durabilidade pela falta de qualidade dos materiais garante o retorno dos consumidores em busca de outros produtos, novos, que certamente serão mais modernos em algum detalhe. Em geral, não se busca consertar nada. É mais fácil jogar fora e comprar novo. Além dessa descartabilidade a curto prazo, existe também aquela imediata, derivada de produtos fabricados para serem usados uma única vez, como copos de plástico, garrafas ‘PET’ etc., que geram um grave problema ambiental“.

Essa mentalidade de consumo sem preocupações com os descartáveis é impregnada na sociedade de consumo, que perde completamente as rédeas quanto aos limites de descartabilidade. Naturalmente, é muito mais simples consumir o produto desejado e descartar as sobras ao final. O grande impasse existente é como compatibilizar a geração desses resíduos com a capacidade de armazenamento e de suporte do ambiente.

Em uma sociedade que sempre disponibiliza um novo produto como a melhor alternativa face à substituição ou reparação de um produto existente, viabilizando, portanto, o descarte, a lógica de reaproveitamento dos resíduos passa a ser uma prática adotada apenas em épocas de crise econômica ou em momentos especiais. A alternativa de usufruir deste recurso como fonte de renda sobra, então, para a classe mais excluída e sem alternativas de sobrevivência. Desta forma, passa a existir uma classe de trabalhadores que tem como matéria-prima a parcela reciclável dos resíduos sólidos urbanos, mesmo estes estando dispostos em lixões.

Vários problemas estão relacionados com a geração de resíduos sólidos urbanos, e o aumento desenfreado da produção destes resíduos tende a uma situação insustentável no que diz respeito à sua gestão. O aumento da população observado nas últimas décadas remete à ampliação direta da geração de resíduos, justamente devido às necessidades de cada pessoa. Essa situação se torna ainda mais complexa na sociedade da descartabilidade, que não assume responsabilidades sobre a geração e destinação dos restos.

Ainda há muito que se discutir sobre esta questão, principalmente no que se refere às mudanças de hábito da sociedade frente ao equilíbrio ambiental do planeta.

Marcos Paulo Gomes Mol, Eng. Ambiental, Coordenador do Serviço de Gestão Ambiental da Fundação Ezequiel Dias – Funed, Doutorando em Saneamento e Meio Ambiente pela UFMG

EcoDebate, 04/04/2013

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Transição de pai para filho exige cuidado e tempo

Especialistas aconselham a empresários só entregar cargos importantes a herdeiros se eles estiverem prontos para exercê-los

 

Rio – A transição do comando empresarial em empresas familiares é um momento que exige muito cuidado e planejamento, de acordo com especialistas. A forma como ela é feita pode afetar o futuro da firma e definir o fracasso ou o sucesso do empreendimento nos anos seguintes.

De acordo com Francisco Marins, gerente da área de Educação e Cultura Empreendedorado Sebrae, o processo deve começar já na criação dos herdeiros. “Muitas vezes, o pai prepara o filho para os negócios”, informa Marins.

Ele explica que, quando o processo de sucessão não é bem planejado, a empresa corre risco de fracasso. “A troca de comando não pode ser automática”, avisa.

Para Marins, o processo é especialmente mais difícil nas empresas familiares. E tudo precisa ser feito com tranquilidade e preparação. “Se não for feito da forma ideal, tudo acaba indo por água abaixo”, diz Marins, para quem a fórmula é equilibrar escolha, gestão e preparação.

Um erro muito cometido pelos pais-patrões é colocar os filhos para trabalhar diretamente em cargos estratégicos na empresa, antes de dar a eles qualificação suficiente. Além dos estudos, a dica de Marins é trabalhar em outras empresas, até mesmo concorrentes, se for o caso.

Para o gerente do Sebrae, esse tipo de experiência enriquece o futuro dono do negócio. “Se coloco meu filho como gerente, e ele não conhece o mercado, a função ou não tem noção de relações interpessoais, como vai ter sucesso?”, questiona Marins.

Outra dica é o trabalho em cargos operacionais antes de assumir um posto estratégico na empresa. Dessa forma, o administrador pode conhecer o funcionamento da empresa e se preparar melhor para assumir a chefia. “Se eu não investir na minha qualificação para conhecer outros mercados, eu vou pegar a empresa e não vou administrar, vou bancar”, diz Marins.

Segundo Sérgio Malta, conselheiro do Sebrae no Rio de Janeiro, apesar das dificuldades, as micros e pequenas empresas familiares têm uma vantagem em relação às outras. “Todos trabalham com grande empenho, com grande entusiasmo, porque são todos donos”.

Ele lembra que o usual é o funcionário chegar, fazer seu trabalho e ir embora. “Mas, se todo mundo é da família, todo mundo está muito empenhado em que aquele negócio dê certo”, analisa Malta.

Mas ele também alerta que é necessário fazer prevalecer o bom senso. “Se for para colocar como sucessor alguém que não tem as habilidades profissionais para tocar o negócio, é melhor chamar alguém de fora”.

Com herdeiros preparados, empresário está tranquilo

Marlei Feliciano, 58 anos, fundou a Ética Imobiliária aos 30. Formado em Ciências Contábeis, Administração, Direito, Economia e com pós-graduação em Engenharia Econômica, ele sabe bem o valor da educação para que os filhos possam levar a empresa à frente.

O foco sempre foi a empresa. “A primeira coisa que eu fiz foi propiciar uma formação adequada. Preocupei-me com a qualidade do ensino, dei segunda língua — o inglês —, para que eles começassem bem a jornada profissional”, diz Marlei.

Rodrigo Feliciano, aos 35, é advogado e trabalha desde os 15. Hoje, é diretor de vendas na Zona Sul do Rio de Janeiro. Já o caçula, Marlei Júnior, 30 anos, é publicitário e vice-presidente da imobiliária.

“É a passagem de toda uma filosofia de vida e o que é o sucesso da minha vida e da minha família”, diz Marlei, sobre o bem que vai entregar nas mãos dos filhos. “Eu não tenho dúvida de que eles estão preparados”, afirma.

Dificuldades na hora das decisões

SUCESSÃO
Especialista em micros e pequenas empresas, Sérgio Malta aconselha a realização de um acompanhamento externo para a sucessão. “Empresas médias podem contratar um consultor, mas, se for uma micro ou pequena, com pouco dinheiro, é aconselhável até chamar um amigo da família, um pessoa que pode dar um bom conselho. É melhor ter uma visão de fora para ajudar”, orienta.

EXPERIÊNCIA EXTERNA
Nas empresas menores, organizar a sucessão e preparar os filhos desde novos é um pouco mais complicado, de acordo com Sérgio Malta. Nesses casos, é importante que o herdeiro trabalhe em outras empresas para adquirir novos conhecimentos. “Ele passa a ter um horizonte diferente e pode trazer novas ideias. Assim, ele não passa o tempo todo só com aquela visão familiar”, explica Malta.

NADA DE BARRACO
O especialista aponta ainda uma desvantagem. “Somos seres humanos e existe uma tendência a misturar os laços profissionais com os familiares. Questões sentimentais devem ser separadas, senão atrapalham”, aconselha Malta.
Orgulho, ciúmes e preferências não podem ter lugar na administração empresarial. Para ele, é preciso incentivar e enaltecer o entusiasmo da construção do patrimônio familiar.

NEGÓCIOS SÃO NEGÓCIOS
Deve-se separar o dinheiro da empresa e o dinheiro da família. Sérgio Malta ensina que usar o caixa da firma para cobrir despesas da família (sejam elas quais forem) é um erro grave. “Isso tumultua tudo. E outros podem querer também”, alerta.

TALENTO É IMPORTANTE
Ter visão empreendedora é fundamental para conduzir bem uma empresa. Para Sérgio Malta, nem sempre é possível manter a gestão 100% eficiente ao longo das gerações. “Às vezes, temos na origem um grande empreendedor, um homem de visão, mas é raro ter homens e mulheres com a mesma qualidade de visão em toda a linha sucessória”, diz.

QUESTÕES INTERNAS
De acordo com Francisco Marins, na hora da sucessão na empresa, é indispensável saber administrar também as questões internas da família. “Quem tem mais de um filho faz o quê? Vai passar a empresa para quem? Tem que negociar, saber com qual herdeiro vai ficar o comando. É preciso saber equilibrar muito bem essa questão”, afirma Marins.

Preparação leva filhos ao sucesso

Quem faz boa preparação para assumir os negócios da família consegue ter sucesso. Foi o que aconteceu com o casal André Finatti, 24 anos, e Ranny Sá, 23.

Ele trabalha na empresa do pai, de tecnologia de segurança, desde 2004. “Comecei logo depois que terminei o Ensino Médio. Meu pai me ensinou tudo sobre a empresa. Passei por todas as experiências, fiz tudo o que os funcionários faziam. Não fui direto para a administração”, conta André.

Ele assumiu o comando da empresa em 2008, após a saída do pai. Mas não quer parar por aí. “Tenho planos que envolvem vender a empresa ou abrir outra com meu pai”, informa.

Ranny administra uma convertedora de GNV. E, como grande parte dos carros no estado já foi convertida, ela pretende ampliar os serviços para não ficar em dificuldades. “Quando terminei a faculdade de administração, assumi o GNV, e meu pai saiu para cuidar só da imobiliária que ele já tinha”.

Desde cedo, Ranny fez sua carreira focando na empresa. Resultado? “É uma coisa que me faz feliz”, diz.

http://odia.terra.com.br/portal/economia/html/2011/2/transicao_de_pai_para_filho_exige_cuidado_e_tempo_144587.html